
Aqui temos a introdução que Rothbard fez 20 anos depois para o artigo original...
Eu gosto bastante dessa introdução... O Tiozinho da Gravata Borboleta tira um belo sarro dessas agremiações de grupos "oficialmente oprimidos" e suas tentativas de usar o Estado para garantir reparações dos "opressores" (quem seriam eles?)...
"De fato, uma mudança radical desde a confecção desse artigo tem sido a rápida e acelerada transformação do igualitarismo antiquado, que desejava transformar todos os indivíduos em iguais, num igualitarismo de grupos em favor dos grupos que são oficialmente designados como “oprimidos”. Em empregos, posições e status em geral, grupos oprimidos devem ter garantida sua cota determinada de posições bem pagas ou de prestígio. (Ninguém parece estar agitando em favor de representação proporcional para cavadores de trincheiras.)"
Hehe o cara matou a pau aqui... O igualitarismo estatista dos politicamente corretos é aquela coisa bem conveniente... A representatividade tem que existir apenas para o que é bom (o que é ruim deixemos para os "opressores" malvados!)...
O que? Eu estaria sendo um hipócrita, após ter traduzido esse texto do Charles Johnson?
Não acho, primeiro pois:
"Finalmente, pode haver práticas sociais ou resultados aos quais libertários deveriam (de alguma forma) ser comprometidos em se opor, mesmo que estes não sejam coercitivos, por que: 1) a coerção governamental é uma pré condição para estes resultados e 2) há motivos independentes para considerá-los males sociais. Se a agressão é moralmente ilegítima, então os libertários estão autorizados a não apenas condená-los, mas também condenar os resultados destrutivos que são sua conseqüência - mesmo se estes outros resultados sejam, num importante sentido, externos à coerção atual."
Como disse o Rad Geek, alguns dos problemas defendidos pelos politicamente corretos têm relação estrita com ação estatal (atual ou passada), e então ser contrário a seus resultados é dever por implicação, no atual momento. Segundo que posições defendidas podem ser coletivistas (racismo, por exemplo), o que pode ser condenável per se (embora não abra margem para o uso da força como defesa).
Versão em Português: http://www.4shared.com/file/86236356/589ec7d4/Murray_Rothbard_-_Liberdade_Desigualdade_Primitivismo_e_Diviso_do_Trabalho__Introduo_.html
Versão Para Aqueles Que Tem Algo Contra Ler Em PDF:
Murray Rothbard – Liberdade, Desigualdade, Primitivismo e Divisão do Trabalho (Introdução)
Tradutor – Rafael Hotz
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INTRODUÇÃO
Nas duas décadas após esse artigo ter sido escrito, as principais tendências sociais que eu analisei aceleraram, e ao que parece, numa taxa exponencial. A fuga do socialismo e planejamento central iniciada pela Iugoslávia foi impressionantemente bem sucedida em todo o “bloco socialista” da Europa Oriental, e agora existe ao menos comprometimento teórico com a idéia de privatização e uma economia de livre mercado. Mais e mais o Marxismo tem ficado confinado aos acadêmicos dos EUA e da Europa Ocidental, confortavelmente assentados como parasitas em suas economias capitalistas. Mas mesmo entre acadêmicos, não há quase mais nada do Marxismo triunfante dos anos 30 e 40, com sua ostentação de eficiência econômica e superioridade do planejamento central socialista. Ao invés disso, mesmo os Marxistas mais dedicados agora pelo menos falam em favor da necessidade de algum tipo de “mercado”, no entanto restrito pelo governo.
I – NOVAS ÁREAS DE DESIGUALDADE E “OPRESSÃO”
Mas isso não significa que a luta contra o igualitarismo acabou. Longe disso. Pelo contrário, após a New Left [*1] do final dos anos 60 e começo dos 70 ter sido desacreditada por sua virada bizarra em favor da violência, ela seguiu o conselho de seus veteranos liberais [*2] e se “juntou ao sistema”. Partidários da New Left iniciaram uma bem sucedida Gramsciana [*3] “longa marcha pelas instituições”, e ao se tornarem advogados e acadêmicos – particularmente nas humanidades, filosofia e ciências sociais “leves” – conseguiram adquirir hegemonia em nossa cultura. Ao se verem derrotados e afugentados no front estritamente econômico (em contraste com a Old Left dos anos 30, economia Marxista e a teoria do valor trabalho nunca foi o ponto forte da New Left), a Esquerda se voltou para o suposto campo moral superior do igualitarismo.
E, como de fato, ela se voltou cada vez mais ao que foi sugerido no último parágrafo do meu ensaio [*4]: mudar a ênfase do antiquado igualitarismo econômico em favor de suprimir aspectos mais amplos da variedade humana. O igualitarismo antigo enfatizava igualar a renda ou a riqueza; mas, como Helmut Shoeck brilhantemente percebeu, a lógica de seu argumento [dos igualitários – N.T.] era suprimir em favor da “justiça”, todas as instâncias da diversidade humana e portanto a superioridade implícita ou explícita de algumas pessoas sobre outras [*5]. Em suma, a inveja da superioridade dos demais deve ser institucionalizada, e todas as fontes possíveis de tal inveja devem ser erradicadas.
Em seu livro sobre a Inveja, Helmut Shoeck analisou um assustador romance distópico do escritor inglês L.P. Hartley. Em seu trabalho, Facial Justice, publicado em 1960, Hartley, extrapolando a partir das atitudes que ele viu na vida britânica após a Segunda Guerra Mundial, começa ao notar que após a Terceira Guerra Mundial a “justiça conseguiu grandes avanços”. A Justiça Econômica, a Justiça Social e outras formas de justiça foram conquistadas, mas ainda existiam áreas da vida para serem conquistadas. Em particular, a Facial Justice (Justiça Facial) ainda não havia sido obtida, uma vez que garotas bonitas possuíam uma vantagem sobre garotas feias. Dessa forma, sob a direção do Ministro da Igualdade Facial, todas as garotas Alfa (bonitas) e Gama (feias) foram obrigadas a sofrer operações nos “Centros de Equalização (Facial)” para obterem rostos Beta (razoavelmente agradáveis) [1].
Coincidentemente, em 1961, Kurt Vonnegut publicou uma pequena história concisa e ainda mais acidamente satírica ilustrando uma sociedade compreensivelmente igualitária, e ainda mais extremada que a de Hartley. “Harrison Bergeron” de Vonnegut começa assim:
O ano era 2081, e todos finalmente eram iguais. Não apenas iguais perante Deus e a lei. Eram iguais em todos os sentidos. Ninguém era mais esperto que ninguém. Ninguém era mais bonito que ninguém. Ninguém era mais rápido ou mais forte do que outro. Toda essa igualdade era devida às emendas 211, 212 e 213 à Constituição, e à vigilância incessante dos agentes do Zelador Geral dos EUA.
Os “cuidados” eram mais ou menos os seguintes:
Hazel tinha uma inteligência perfeitamente mediana, o que significava que ela não era capaz de raciocinar sobre nada exceto em pequenos lampejos. E George, enquanto sua inteligência era bem acima do normal, possuía um pequeno rádio de monitoramento em seu ouvido. Ele era exigido por lei a usá-lo sempre. Ele ficava ligado num transmissor governamental. A cada vinte minutos ou quase isso, o transmissor emitiria algum ruído agudo para impedir que pessoas como George se aproveitassem injustamente de seus cérebros [2].
Esse tipo de ênfase igualitária em desigualdades não econômicas se proliferou e se intensificou nas décadas após esses homens terem cunhado suas distopias Orwellianas um tanto quanto exageradas. Nos círculos acadêmicos e literários o “politicamente correto” é agora propagado com uma cada vez mais pesada mão de ferro; e a chave para ser politicamente correto é nunca, jamais, em qualquer área, fazer julgamentos de diferença ou superioridade.
Assim, notamos que uma publicação do Escritório de Assuntos Estudantis do Smith College lista dez tipos diferentes de “opressão” supostamente infligidos ao se fazer julgamentos sobre as pessoas. Incluem: “heterossexismo”, definido como “opressão” daqueles com orientações não heterossexuais, o que inclui “não reconhecer sua existência”; e “habilitismo” [*6], definido como opressão daqueles “diferentemente habilitados” [conhecidos em dias menos ilustres como “deficientes” ou “desabilitados”], por parte dos “temporariamente habilitados”. Particularmente relevante para nossos dois escritores distópicos é o “idadismo” [*7], opressão dos jovens e velhos por parte dos adultos recém saídos da adolescência e de meia idade, e “visualismo” [*8], definido como a “construção de um padrão de beleza/atratividade”.
“Opressão” é obviamente definida amplamente para indicar a própria existência de possível superioridade – e, portanto, uma oportunidade para a inveja – em qualquer campo. A dominante teoria literária do desconstrucionismo impetuosamente argumenta que não pode haver critérios para julgar um “texto” superior a outro. Numa conferencia recente, onde um professor de ciência política se referia corretamente ao livro de Czeslaw Milosz, The Captive Mind, como um “clássico”, outra professora declarou que a própria palavra “clássico” a “fazia se sentir oprimida” [4]. A implicação clara é que qualquer referência ao produto superior de outra pessoa pode provocar ressentimento e inveja nas pessoas comuns, e que lidar com esses “sentimentos de opressão” deve ser o foco central do aprendizado e crítica.
O propósito da academia e outras instituições de pesquisa sempre foi uma procura irrestrita pela verdade. Esse ideal agora tem sido desafiado e substituído por lidar com os sentimentos “sensíveis” do politicamente correto. Essa ênfase nos sentimentos subjetivos ao invés da verdade fica evidente no furor atual quanto ao ensinamento do distinto antropólogo de Berkeley, Vincent Sarich. O exame de Sarich das influências genéticas nas diferenças raciais de resultados foi denunciado por um colega de faculdade como “uma tentativa de destruir a auto-estima dos estudantes negros da classe” [5].
II – COTAS PARA GRUPOS
De fato, uma mudança radical desde a confecção desse artigo tem sido a rápida e acelerada transformação do igualitarismo antiquado, que desejava transformar todos os indivíduos em iguais, num igualitarismo de grupos em favor dos grupos que são oficialmente designados como “oprimidos”. Em empregos, posições e status em geral, grupos oprimidos devem ter garantida sua cota determinada de posições bem pagas ou de prestígio. (Ninguém parece estar agitando em favor de representação proporcional para cavadores de trincheiras.) Eu percebi pela primeira vez essa tendência num artigo escrito um ano após este ensaio num simpósio sobre A Natureza e Conseqüências da Ideologia Igualitária.
Lá eu reagi energicamente à representação proporcional para grupos designados exigida pelo movimento de McGovern na Convenção do Partido Democrata de 1972. Esses triunfantes Democratas insistiam que grupos tais como mulheres, jovens, negros e Chicanos estavam representados abaixo de sua proporção populacional como delegados eleitos nas convenções anteriores; isso deveria ser retificado com o Partido Democrata revogando as escolhas de seus membros e insistindo numa cota de representação de tais grupos supostamente oprimidos. Eu notei a particular idiotice da alegação de que idades entre 18 e 25 anos estiveram deploravelmente “sub-representadas” no passado, e me dei o prazer fazer uma reductio ad absurdum “politicamente inapropriada” ao sugerir uma correção imediata a atroz e crônica sub-representação de homens e mulheres abaixo dos cinco anos [6].
Contudo, apenas dois antes daquela convenção, outra forma de apelo à proporcionalidade foi vista com o apropriado desdém e ridicularização pelos liberais de esquerda. Quando um dos frustrados candidatos do Presidente Nixon à Suprema Corte foi ridicularizado como sendo “medíocre”, o Senador Roman Hruska (Republicano, Nebraska) questionou o fato do camarada medíocre da América não merecer “representação” na Corte mais importante. Críticos liberais jocosamente acusaram o Senador de praticar uma argumentação ilusória [*9]. A mesma acusação, apontada para os denunciadores do “logismo” [*10] iria afastar tais críticos da vida pública. Mas os tempos, e padrões de justeza política mudaram.
É difícil, de fato, parodiar ou satirizar um movimento que parece ser uma auto-paródia ambulante, e que só pode trazer resultados deploráveis. Assim, dois eminentes historiadores americanos, Bernard Bailyn e Stephan Thernstron, foram literalmente forçados a abandonarem seu curso sobre a história das relações raciais americanas em Harvard, por causa das absurdas acusações de “racismo” levantadas por alguns estudantes, acusações que foram tratadas com seriedade extrema por todos envolvidos. De particular interesse aqui foi a acusação contra o curso de Bailyn sobre as relações raciais na era colonial.
A “implicância” dos estudantes contra Bailyn foi que ele leu um diário de um fazendeiro sulista sem dar “tempo igual” às memórias de um escravo. Para os reclamantes, essa prática claramente remontou a uma “defesa disfarçada da escravatura”. Bailyn pacientemente explicou durante tal leitura ofensiva que nenhum diário, jornal ou cartas de escravos naquele período foram encontrados. Mas para esses estudantes, Bailyn claramente falhou ao compreender o problema: “Uma vez que era impossível dar representação igual aos escravos, Bailyn deveria ter aberto mão do diário do fazendeiro de qualquer maneira” [7].
Porta-vozes defensores de cotas para grupos “oprimidos” (rotulados para propósitos de relações públicas com a cativante frase “ação afirmativa”) geralmente alegam que um sistema de cotas é a coisa mais distante de suas cabeças: tudo o que querem é ação positiva para aumentar a representatividade dos grupos favorecidos. Ou eles estão sendo flagrantemente falsos ou então falharam em compreender aritmética elementar. Se o grupo oprimido X tem que ter sua “representatividade” aumentada de, digamos, 8 para 20%, então algum grupo ou combinação de grupos terá que ter sua representação reduzida em 12%. A agenda por trás, ou às vezes nem tanto assim por trás, é que a queda de representatividade deve ocorrer entre os membros dos grupos designados como opressores, que presumivelmente merecem tal destino.
III – QUEM SÃO OS “OPRIMIDOS”?
Nesse regime de igualitarismo de grupos, se torna particularmente importante se colocar em meio aos Oprimidos ao invés dos Opressores. Quem, então, são os Opressores? É difícil determinar, uma vez que novos grupos de oprimidos estão sempre sendo descobertos. É quase de se sentir saudades dos bons velhos dias do Marxismo clássico, quando havia apenas uma “classe oprimida” – o proletariado – e uma ao no máximo algumas poucas classes de opressores: os capitalistas ou burguesia, acompanhados às vezes dos “senhores feudais” ou talvez da pequena burguesia. Mas agora, conforme as fileiras dos oprimidos e consequentemente os grupos especialmente privilegiados pela sociedade e Estado continuam se multiplicando, e as fileiras dos opressores continuam minguando, o problema do igualitarismo de renda e riqueza reaparece e de forma dobrada. Isso porque uma variedade cada vez maior de grupos está sendo continuamente adicionada ao fardo parasita que recai sobre uma quantidade cada vez menor de opressores. E uma vez que é obviamente interessante para todos abandonar as fileiras dos opressores e se moverem em direção às dos oprimidos, grupos de pressão irão cada vez mais serem bem sucedidos ao faze-lo – isso enquanto essa ideologia disfuncional continue a florescer. Especificamente, atingir o status de Oficialmente Oprimido garante uma participação no fluxo incessante de benefícios – em dinheiro, status e prestígio – vindo dos infortunados Opressores, que são feitos se sentirem culpados eternamente, mesmo quando são forçados a sustentar e expandir tal fluxo incessante. Não é de surpreender que atingir o status de oprimido requer muita pressão e organização. Como Joseph Sobran sabiamente coloca: “é necessária muita influencia para ser uma vítima”. Eventualmente, se tudo continuar desse jeito, o resultado deve ser a morte de ambos, parasita e hospedeiro, e um final para qualquer economia ou civilização florescente.
Há virtualmente um número infinito de grupos ou “classes” na sociedade: a classe das pessoas chamadas Smith, a classe das pessoas com 6 pés de altura, a classe dos carecas, e por aí vai. Qual desses grupos pode se enxergar entre os “oprimidos”? Quem vai dizer? É fácil inventar um novo grupo oprimido. Eu posso chegar com um estudo em mãos, por exemplo, demonstrando que a classe das pessoas chamadas “Doe” possuem uma renda média ou uma riqueza ou status inferior àquela dos outros nomes. Eu poderia então propor uma hipótese de que as pessoas chamadas “Doe” tem sido discriminadas porque seus nomes “John Doe” e “Jane Doe” tem sido “estereotipados” como associados com anonimato, e pronto, temos mais um grupo que é capaz de deixar as sobrecarregadas fileiras dos oprimidos e se juntar às alegres fileiras dos oprimidos.
Um teórico político amigo meu achou que poderia cunhar um Grupo Oprimido satírico: pessoas pequenas, que sofrem com o “altismo”. Eu o informei que ele havia sido seriamente antecipado há duas décadas, novamente demonstrando a impossibilidade de parodiar e ideologia vigente. Eu notei há quase vinte anos, num artigo escrito pouco após esse ensaio, que o Professor Saul D. Feldman, um sociólogo da Case Western Reserve, e o próprio uma distinta pessoa de baixa estatura, já havia feito a ciência lidar com a antiga opressão dos baixos pelos altos. Feldman reportou que dos recentes formandos da Universidade de Pittsburgh, aqueles com altura igual ou superior a 6 pés e 2 polegadas recebiam um salário inicial médio 12,4% mais alto do que formandos menores que 6 pés, e também que um professor de marketing na Eastern Michigan University perguntou a 140 recrutadores sobre suas preferências entre dois candidatos hipotéticos, igualmente qualificados para o trabalho de vendedor. Um dos hipotéticos vendedores teria 6 pés e 1 polegada, e o outro 5 pés e 5 polegadas. Os recrutadores responderam da seguinte forma: 27% expressaram a indiferença politicamente correta; 1% disse que contrataria o baixo; e nada menos que 72% contrataria o mais alto.
Além dessa explícita opressão dos altos sobre os baixos, Feldman mostrou que as mulheres notoriamente preferem homens altos a homens baixos. Ele poderia ter mostrado também, que Alan Lass poderia apenas desempenhar o papel de galã nos filmes produzidos por executivos intolerantes de Hollywood ao subir em cima de uma caixa escondida, e que mesmo o ótimo ator Sydney Greenstreet foi filmado por uma câmera colocada em baixo para fazê-lo parecer mais alto do que ele já é. [Os próprios chefe de estúdio eram pessoas baixas, mas estavam traindo seus camaradas baixos ao satisfazer a cultura pró-altos.] Feldman também mostrou perceptivamente o preconceito anti-baixos que permeia nossa linguagem: em frases tais como “visão curta”, “rédeas curtas”, “curto circuito” e “curto de grana” [*11]. Ele ainda disse que dentre os dois principais candidatos a Presidência, o mais alto é invariavelmente eleito [8].
No meu artigo eu desejava incitar um movimento da libertação dos baixos para acabar com a opressão, e perguntei: onde estão os líderes baixos de corporações, os banqueiros baixos, os Senadores baixos e os Presidentes baixos [9], [10]? Eu perguntei onde estava o orgulho baixo, institutos de baixos, cursos de história dos baixos, cotas para baixos, e pedi para que os baixos parassem de internalizar a antiga propaganda de nossa cultura dos altos que diz que os baixos são genética ou culturalmente inferiores. (Vejam só Napoleão) Pessoas baixas, levantem-se! Vocês não têm nada a perder a não ser seus sapatos de plataforma. Eu acabei garantindo aos altos que nós não somos anti-altos, e que vemos com bons olhos altos progressistas, demonstrando um sentimento de culpa, como simpatizantes pró-baixos e auxiliares em nosso movimento. Se minha própria consciência tivesse sido suficientemente despertada naquele momento, eu com certeza teria adicionado uma demanda para que os altos compensem os baixos por diversos milhares de anos de tirania altista.
IV – OS ROMÂNTICOS E O PRIMITIVISMO
Saindo do tópico dos oprimidos, minha própria visão dos Românticos, certamente distorcida há vinte anos, é muito mais hostil hoje em dia. Isso porque eu aprendi através de fontes como Leszek Kolakowsky e particularmente do grande crítico literário M. H. Abrams, da devoção dos Românticos, Hegelianos e do Marxismo ao que pode ser chamado de “teologia da reabsorção”. Essa visão se originou com o egípcio Platônico do século III, Plotino, desembocando no Platonismo Cristão e a partir daí constituindo uma alternatividade mística e herética no pensamento ocidental. Brevemente, esses pensadores viam a Criação não como um maravilhoso transbordamento da bondade de Deus, mas sim como um ato essencialmente mau que rompeu a abençoada unidade pré-Criação das entidades coletivas Deus, Homem e Natureza, causando uma trágica e inevitável “alienação” ao Homem. Entretanto, a Criação, o resultado natural das deficiências divinas, só é redimível em um único sentido: a História é um processo inevitavelmente “dialético” através do qual a pré-Criação dá origem ao seu oposto, o mundo atual. Mas no final das contas a história está destinada a terminar numa poderosa “reabsorção” dessas três entidades coletivas, apesar de um nível de desenvolvimento muito mais alto para Deus e o Homem. Além de outros problemas com essa visão, o contraste com o Cristianismo ortodoxo deveria estar claro. Ao passo que no Cristianismo, o indivíduo é feito à imagem de Deus e a salvação de cada indivíduo é de importância suprema, a supostamente benevolente fuga dos partidários da reabsorção da alienação metafísica acontece apenas no final da história e apenas para a espécie coletiva Homem, com o indivíduo desaparecendo dentro do organismo espécie [11].
Quanto ao primitivismo, pesquisa antropológica posterior tem reforçado a visão desse ensaio de que as tribos primitivas, e culturas pré-modernas em geral, eram marcadas não pelo comunismo, a la Engels e Polanyi, mas por direitos de propriedade, mercados e troca monetária. O trabalho do economista Bruce Benson sublinhou esse ponto em particular [12].
V – A DIVISÃO DO TRABALHO
Eu percebi, ao escrever esse ensaio, que eu dei muita sobreestimei as contribuições e importância de Adam Smith sobre a divisão do trabalho. E para minha surpresa, eu não apreciei suficientemente as contribuições de Ludwig von Mises.
Apesar da enorme ênfase na especialização e na divisão do trabalho na Riqueza das Nações, muita da discussão de Smith está fora de seu lugar e é enganosa. Em primeiro lugar, ele deu importância indevida à divisão do trabalho dentro da fábrica (o famoso exemplo da fábrica de pregos), e pouco considerou a bem mais importante divisão do trabalho entre as várias indústrias e ocupações. Segundo, há a perversa contradição entre as discussões no Livro I e V da Riqueza das Nações. No Livro I, a divisão do trabalho é saudada como a responsável pela civilização e crescimento econômico, e também gratificada como expandindo o sentimento de alerta e inteligência da população. Mas no Livro V a divisão do trabalho é condenada como levando à degeneração intelectual e moral da mesma população, e à perda de suas “virtudes intelectuais, sociais e marciais”. Essas queixas quanto a divisão do trabalho bem como temas similares na obra do amigo próximo de Smith, Adam Ferguson, influenciaram fortemente a crítica sobre “alienação” em Marx e escritores socialistas posteriores [13].
Mas de ainda maior importância fundamental foi o abandono por parte de Smith da tradição desde Jean Buridan e Escolásticos que enfatizava que duas partes se engajavam numa troca porque ambas esperavam ganhar com a transação. Em contraste com essa ênfase na especialização e troca como um resultado na ação humana consciente, Smith mudou o foco de benefício mútuo para uma irracional e inata suposta “propensão a cambiar, a troca, ao escambo”, como se os seres humanos fossem roedores determinados por forças externas a seus próprios propósitos escolhidos. Como disse Edwin Cannan há muito tempo, Smith o fez porque ele rejeitava a idéia de diferenças inatas nos talentos e habilidades humanas, diferenças que naturalmente levariam as pessoas a procurarem diferentes ocupações especializadas [14]. Smith ao invés escolheu uma posição igualitária-tábula-rasa, ainda dominante hoje na economia neoclássica, dizendo que todos os homens são uniformes e iguais, e que por isso diferenças no trabalho ou em ocupações só podem ser o resultado ao invés da causa da divisão do trabalho. Somando-se a isso, Smith inaugurou a tradição resultante de que diferenças de salário entre essa população uniforme podem refletir apenas diferenças no custo de treinamento [15], [16].
Em contraste, o trabalho recente do Professor Joseph Salerno iluminou as profundas contribuições da ênfase de Ludwig von Mises na divisão do trabalho como a “essência da sociedade” e o “fenômeno social fundamental”. Para Mises, enquanto eu escrevo esse ensaio, a divisão do trabalho emana da diversidade e desigualdade dos seres humanos e da natureza. Salerno, além disso, nos explica com clareza sem paralelos que para Mises a divisão do trabalho é uma escolha consciente de ganho mútuo e desenvolvimento econômico. O processo de evolução social se torna então “o desenvolvimento da divisão do trabalho”, e isso permite Mises a se referir a divisão mundial do trabalho como um “organismo social” ou “oecumene”. Mises também mostra que a divisão do trabalho está no coração dos organismos biológicos, e é o “princípio fundamental de todas as formas de vida”. A diferença do “organismo social” é que, em contraste com os organismos biológicos, “a razão e a vontade são a forma originária e sustentadora da coalescência orgânica”. Assim, para Mises a “sociedade humana é então espiritual e teleológica”, o “produto da vontade e do pensamento”. Ela então se mostra como de importância suprema para que as pessoas possam compreender a significância de manter e expandir a oecumene que consiste no livre mercado e trocas humanas voluntárias, e perceberem que violar e impedir o mercado e a oecumene só pode ter conseqüências desastrosas para a raça humana [17].
Na visão comum, os escritores e teóricos sociais acabam por suavizar e moderar suas visões conforme envelhecem. (Duas gloriosas exceções a essa regra são duas figuras libertárias bem diferentes como Lysander Spooner e Lord Acton.) Olhando para essas duas décadas após ter escrito esse ensaio, está claro que minhas visões, pelo contrário, se radicalizaram e polarizaram ainda mais. Como não pareceria a vinte anos atrás, eu sou ainda mais hostil ao socialismo, igualitarismo e ao Romantismo, ainda mais crítico da tradição clássica britânica e da neoclássica moderna, e mais apreciador dos grandes enfoques de Mises do que nunca. De fato, para alguém que pensou que tinha absorvido todo o trabalho de Mises há alguns anos atrás, é uma fonte constante de surpresa como reler Mises continua a garantir uma fonte de enfoques novos e novas maneiras de observar situações aparentemente banais. Esse fenômeno, que muitos de nós já experimentamos, apenas reforça o fato da impressionante riqueza e qualidade do pensamento de Mises. Apesar de ter morrido há quase duas décadas, Ludwig von Mises continua verdadeiramente mais vivo do que a maioria dos nossos convencionalmente inteligentes contemporâneos.
Murray N. Rothbard
Las Vegas, Nevada
Fevereiro, 1991
Notas do Autor
[1] Ver a discussão em Helmut Schoeck, Envy: A Theory of Social Behavior (Nova Iorque: Harcourt, Brace & World, 1970), pp. 149-55. O trabalho de Shoeck foi publicado originalmente em alemão, em 1966, sob o título Der Neid, e a tradução para inglês foi publicada primeiramente em 1969.
[2] Kurt Vonnegut, Jr., "Harrison Bergeron" (1961), em Welcome to the Monkey House (Nova Iorque: Dell, 1970), p.7.
[3] John Taylor, "Are you Politically Correct?" New York (Janeiro, 21, 1991, p.38. Ver também ibid., pp. 32-40: "Taking Offense," Newsweek (Dezembro, 24, 1990), pp. 48-54.
[4] Newsweek, loc. cit., p. 53.
[5] Paul Selvin, "The Raging Bull of Berkeley," Science 251 (Janeiro, 25, 1991): 369.
[6] Murray N. Rothbard, "Egalitarianism as a Revolt Against Nature," em Egalitarianism as a Revolt Against Nature and Other Essays (Washington, D.C.: Libertarian Review Press, 1974), pp. 7-8.
[7] Taylor, "Are You Politically Correct?", p. 33.
[8] O argumento de Feldman teria sido reforçado se ele tivesse escrito após a campanha de 1988: não apenas Bush era mais alto que Dukakis, mas o Deputado Charles Wilson (Democrata, Texas) foi capaz de expressar a intolerância altista de sua região: “Nenhum anão grego é capaz de tomar conta do Leste do Texas”, sem incitar protestos e marchas das massas baixas. Sobre o estudo de Feldman, ver Arthur J. Snider, "Society Favors Tall Men: Prof," New York Post (Fevereiro 19, 1972). Sobre tudo isso, ver Murray N. Rothbard, "Short People, Arise!" The Libertarian Forum IV (Abril 1972): p. 8.
[9] Seria instrutivo estudar se o tratamento selvagem dado ao Senador John Tower em sua audiência de confirmação para Secretário de Defesa foi devido à discriminação contra ao seu tamanho pequeno.
[10] Um projeto possível para historiadores americanos: a maior parte dos barões empresariais do fim do século XIX (por exemplo, Jay Gould e John D. Rockefeller, Sr.) eram muito baixos. Através de que processo os altos quietamente ganharam poder no mundo corporativo?
[11] Ver Leszek Kolakowski, Main Currents of Marxism, vol. I, The Founders (Oxford: Oxford University Press, 1981), pp. 9-39; M.H. Abrams, Natural Supernaturalism: Tradition and Revolution in Romantic Literature (Nova Iorque: Norton, 1971); M.H. Abrams, "Apocalypse: Theme and Variations" em C.A. Patrides e Joseph Wittreich, eds., The Apocalpse in English Renaissance Thought and Literature (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1984), pp.342-68; Ernest L. Tuveson, "The Millenarian Structure of the Communist Manifesto," em ibid., pp. 323-41; e Murray N. Rothbard "Karl Marx: Communist as Religious Eschatologist,"[PDF] The Review of Austrian Economics 4 (1990): 123-179.
[12] Bruce L. Benson, "Enforcement of Private Property Rights in Primitive Societies: Law Without Government,"[PDF] Journal of Libertarian Studies 9 (Inverno 1989): 1-26; e Benson, The Enterprise of Law: Justice Without the State (San Francisco: Pacific Research Institute for Public Policy, 1990), pp. 11-41. Ver também Joseph R. Peden, "Property Rights in Celtic Irish Law,"[PDF] Journal of Libertarian Studies 1 (1977): 81-95: e David Friedman, "Private Creation and Enforcement of Law: A Historical Case," Journal of Legal Studies 8 (Março 1979): 399-415.
[13] Sobre a influência de Ferguson, ver Abrams, Natural Supernaturalism, pp. 220-21, 508.
[14] Edwin Cannan, A History of the Theories of Production and Distribution in English Political Economy from 1776 to 1848, 3rd ed (Londres: Staples Press, 1917), p. 35
[15] Contraste o igualitarismo de Smith com o grande Escolástico italiano do início do século XV, San Bernardino de Siena (1380 – 1444). Em seu On Contracts and Usury, escrito em 1431-33, Bernardino mostrou que a desigualdade de salários no mercado é uma função das diferenças de habilidade e capacidade assim como de treinamento. Um arquiteto é mais bem pago que um cavador de trincheiras, explicou Bernardino, porque o trabalho do primeiro necessita de mais inteligência, habilidade e treinamento, resultando que poucos serão qualificados para a tarefa. Ver Raymond de Roover, San Bernardino of Siena and Sant'Antonino of Florence: The Two Great Thinkers of the Middle Ages (Boston: Baker Library, 1967), e Alejandro Chafuen, Christians for Freedom: Late Scholastic Economics (San Francisco: Ignatius Press, 1986), pp. 123-31.
[16] A moderna economia neoclássica se encaixa nessa tradição ao definir “discriminação” como qualquer desigualdade de salário maior do que as diferenças no custo de treinamento. Assim, ver o trabalho padrão de Gary Becker, The Economics of Discrimination (Chicago: University of Chicago Press, 1957).
[17] Joseph T. Salerno, "Ludwig von Mises as Social Rationalist," [PDF] The Review of Austrian Economics 4 (1990): 26-54. Ver também a crítica de Salerno da reação de incompreensão de Eamonn Butler dos enfoques de Mises, acusando Mises da “falácia orgânica” e de “dificuldades com inglês”. Ibid., p.29n. o contraste implícito da visão de Mises com a ênfase de Hayek na ação inconsciente e aderência cega à regras tradicionais é explicitada por Salerno na última parte desse artigo lidando com o debate do cálculo econômico no socialismo, e em Salerno, "Postscript," in Ludwig von Mises, Economic Calculation in the Socialist Commonwealth (Auburn, Al,: Ludwig von Mises Institute, 1990), pp. 51-71.
Notas do Tradutor
[*1] Sobre a New Left. No final dos anos 60 e início dos anos 70, Rothbard e outros libertários decidiram se aliar com a New Left contra o establishment culturalmente conservador, pró-guerra e contrário ao livre mercado.
[*2] Nos EUA a palavra “liberal” é usada para designar algo que no Brasil seria chamado de Social-Democrata.
[*3] Antonio Gramsci era um Marxista que defendia que o meio para se estabelecer o socialismo seria uma espécie de “revolução cultural”.
[*4] Esse texto é de 1991 e foi escrito como introdução para a segunda edição de Liberdade, Desigualdade, Primitivismo e Divisão do Trabalho.
[*5] Em alguns campos, completaria eu.
[*6] “Ableism”.
[*7] “Ageism”.
[*8] “Lookism”.
[*9] “Special pleading”.
[*10] Rothbard usa o termo “logism”. Não encontrei tradução, mas suponho que seja “logismo”.
[*11] As expressões usadas por Rothbard não foram fielmente traduzidas, caso contrário não haveria sentido. Foram elas: “short-sighted”, “short-changed”, “short-circuited”, e “short in cash”.






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