quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

48 - Ludwig Lachmann - O Capital E Sua Estrutura (II)

Opa, aqui temos mais um capítulo do livro do Ludovico Lachmann, dessa vez sobre expectativas...

Expectativas ainda é um tema sem definição precisa na EA... Lachmann é um adepto de "expectativas subjetivas"... O agente interpreta os dados dando pesos aleatórios de acordo com sua experiência... Sua hipótese é falsificada pelos fatos, e novo aprendizado acontece...

Mas esse é só um dos lados da moeda, sempre é bom lembrar que existe uma realidade objetiva, e desvios dela geram perdas, o que elimina mentes "criativas demais"...



Versão de Preguiçoso:


Ludwig Lachmann – O Capital E Sua Estrutura (Capítulo II)

Tradutor – Rafael Hotz

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Capítulo II – Sobre Expectativas


A introdução explícita das expectativas nas teorias econômicas dos últimos trinta anos deu origem a um grupo novo de problemas. Destes o mais fundamental é a questão de se as expectativas devem ser tratadas como “dados” independentes ou como resultados dos processos econômicos. Até então, os economistas parecem discordar quanto à resposta, mostrando o estado insatisfatório da teoria das expectativas.

Evidentemente expectativas não são resultados econômicos no sentido em que preços e quantidades o são. Nenhum processo econômico as determina. Um aumento de 10% no preço das maçãs pode tanto dar origem a uma expectativa de outro aumento quanto a uma de queda futura. Tudo depende das circunstâncias que acompanham o aumento, e pessoas diferentes darão a essas circunstâncias uma interpretação diferente. Disso segue que todas essas teorias dinâmicas que estão baseadas em “equações em diferença”, “aceleradores”, etc., simplesmente contornam nosso problema. No máximo podemos tomá-las como hipóteses condicionais para serem empregadas enquanto as questões mais amplas continuam sem resposta.

É, no entanto, igualmente impossível tratar expectativas como dados da mesma forma que tratamos gostos do consumidor. A partir de qualquer ângulo que as observemos, as expectativas refletem experiência econômica e são afetadas por mudanças nesta. Nesse fato reside uma diferença importante entre uma mudança de gostos e uma mudança de expectativas. Uma mudança de gosto também, é claro, pode ser devida à experiência, mas não precisa ser. Eu posso parar de fumar certa marca de cigarros porque eu descobri que ela afeta minha garganta, mas eu também posso parar porque eu não gosto mais dela e “perdi meu apreço por ela”. Por trás dos gostos está um substrato irredutível que a análise racional não é capaz de captar, que pode ser material de interesse para o psicólogo, mas que desafia as ferramentas analíticas do economista.

As expectativas, por outro lado, sempre incorporam experiência problemática, isto é, experiência que requer interpretação. É a tarefa da teoria das expectativas elucidar os problemas que nossa experiência (e a de outros enquanto nos seja acessível) nos cria ao julgar o futuro incerto, assim como clarificar o modus interpretandi. É uma tarefa que até então os economistas não parecem ter lidado.

A experiência é a matéria prima da qual as expectativas são feitas. Mas nem toda a matéria prima é igualmente útil, nem toda experiência é igualmente relevante para uma dada situação. Há um elemento subjetivo nas ações da mente através do qual selecionamos aquelas porções de nossa experiência que permitimos afetar nosso julgamento do futuro. Mas esse subjetivismo de interpretação é algo completamente diferente do subjetivismo de desejos que apóia nossa teoria da utilidade. A primeira fornece julgamentos temporários que serão confirmados por experiência posterior, conhecimento imperfeito capaz de ser aperfeiçoado. A última pode não pode nos dar conhecimento novo: ou temos um desejo ou não temos.

Numa sociedade baseada na divisão do trabalho as pessoas não podem agir sem saber as necessidades e recursos dos demais. Tal conhecimento não precisa ser, como alguns acreditaram, “perfeito”, mas deve ser conhecimento relevante, conhecimento das condições de oferta e demanda nos mercados nos quais se está negociando. Não há dificuldade em conceber tal conhecimento num “estado estacionário”, um mundo sem mudanças, uma vez que não precisamos perguntar como as pessoas adquiriram seu conhecimento mais do que precisamos perguntar como esse improvável estado de coisas tomou lugar: ambas pertencem à categoria das, agora irrelevantes, “relíquias” [*1].

Mas também podemos conceber um estado quase estacionário no qual mudanças são poucas e espaçadas, e cada mudança já teve todas suas repercussões antes da próxima acontecer. Esse estado quase estacionário é o pano de fundo da maior parte da economia neoclássica. Nele o método da estática comparativa me mostra completamente vantajoso. Nesse estado o conhecimento é guiado pelos preços funcionando como letreiros para a ação. Aqui é observando mudanças de preço que os consumidores aprendem que bens substituirão por quais, e os produtores aprendem que linhas de produção abandonarão e a qual delas se dedicarão. Aqui podemos dizer que o sistema de preços integra toda a atividade econômica. Podemos tomar o sistema de preços como uma vasta rede de comunicações através da qual o conhecimento é de uma só vez transmitido a partir cada mercado até os confins mais remotos da economia. Toda mudança significante nas necessidades ou recursos se expressa numa mudança de preço, e cada mudança de preço é um sinal para os consumidores e produtores modificarem sua conduta. Dessa maneira as pessoas ganham conhecimento umas sobre as outras ao seguir de perto os preços de mercado.

Mas no mundo em que vivemos a mudança não segue tal padrão conveniente. Aqui o conhecimento adquirido de mensagens de preço se torna problemático. Ele não deixa de ser conhecimento, mas “não conta toda a história”. Muitas mudanças podem acontecer simultaneamente. Partes de nossa rede de comunicações podem estar “interferidas” e mensagens atrasadas. Quando um número de mensagens é recebido não é mais clara a ordem na qual elas foram “enviadas”. Além disso, mesmo se não houver atraso na transmissão, o conhecimento de hoje pode ser inútil amanha, não sendo mais então um guia seguro para a ação. Pior de tudo, num mundo de mudança contínua muito pode ser ganho por aqueles “especuladores” que preferem antecipar as mudanças de amanha ao invés de se ajustarem às últimas mensagens recebidas. Sua ação afetará preços que outros tomam como seu ponto de orientação, e que, caso esses especuladores estejam errados, poderão direcionar outros para ações que eles não teriam praticado caso soubessem a causa real da mudança de preço.

Aqui não é nem necessário nem possível cobrir todas as ramificações do problema do que constitui conhecimento relevante num mundo de mudança contínua. Esse tema será revisto no Capítulo IV. Ação baseada em mensagens de preço que fornecem informação errônea é, como veremos no Capítulo VII, frequentemente um fator importante no Ciclo de Negócios.

Para nosso propósito atual é suficiente compreender:

Primeiro, que num mundo de mudança contínua os preços não são mais em todas as circunstancias um guia seguro para a ação;

Segundo, que apesar de tudo ainda aqui mudanças de preço transmitem informação, apesar de informação incompleta;

Terceiro, que tal informação requer então interpretação (as mensagens precisam ser “decodificadas”) para que sejam transformadas em conhecimento, e tal conhecimento está fadado a ser conhecimento imperfeito.

Numa economia de mercado o sucesso depende largamente do grau de refinamento dos instrumentos de interpretação. Por outro lado, cada ação é uma fonte de conhecimento para outros.

A formação de expectativas não é nada senão uma fase nesse processo contínuo de troca e transmissão de conhecimento que efetivamente integra uma economia de mercado. Uma teoria de expectativas que seja capaz de explicar alguma coisa tem que começar estudando essa fase no contexto do processo como um todo. Se falhar, ela não completou nada. Sua primeira tarefa é descrever a estrutura dos atos mentais que constituem a formação das expectativas; sua segunda tarefa, descrever o processo de interação de um número de indivíduos cuja conduta é orientada um em função do outro.

Para qualquer um que tenha que tomar uma decisão em face de um futuro incerto a formação de uma expectativa é incidental para o esforço de diagnosticar a situação na qual ele deve agir, um esforço sempre praticado com conhecimento imperfeito. O empresário que forma uma expectativa está fazendo precisamente o que um cientista faz quando ele formula uma hipótese funcional. Ambas, hipóteses empresariais e científicas servem ao mesmo propósito; ambas refletem uma tentativa de cognição e orientação num mundo imperfeitamente conhecido, ambas incorporam conhecimento imperfeito que será testado e aperfeiçoado pela experiência posterior. Cada expectativa não responde por si só, mas é o resultado cumulativo de uma série de expectativas antigas que foram revisadas sob a luz da experiência anterior, e essas revisões passadas são a fonte de qualquer conhecimento presente que possuímos. Por outro lado, nossa expectativa presente, a ser revisada posteriormente conforme a experiência flua, não é apenas a base do plano de ação, mas também uma fonte de um conhecimento futuro ainda mais perfeito. A formação de expectativas é assim um processo contínuo, um elemento no processo mais amplo de transmissão de conhecimento. A lógica do método de análise de processo, como aprenderemos no Capítulo III, é o que nos permite tratar os “dados” ex ante de ação como hipóteses provisórias a serem revisadas sob a luz da experiência posterior.

Dissemos que a formação de expectativas é incidental para a diagnose da situação como um todo na qual se deve agir. Como isso é feito? Nós analisamos a situação, como a vemos, em termos de forças às quais atribuímos vários graus de força. Descartamos aquelas que acreditamos serem forças minoritárias e postulamos nossas expectativas em termos dos resultados que esperamos que as forças majoritárias tenham. Quais forças tomamos como minoritárias e majoritárias é certamente uma questão de julgamento. Aqui o elemento subjetivo de interpretação é visto em operação. Em geral, somos propensos a tratar forças operando aleatoriamente como forças minoritárias, uma vez que nada sabemos sobre sua origem e direção, e não somos de forma alguma capazes de prever o resultado de sua operação. Tratamos como forças majoritárias aquelas cuja origem e direção achamos que conhecemos alguma coisa. Isso significa que ao estimar a significância das mudanças de preço observadas no passado para as mudanças futuras tenderemos a negligenciar aquelas que acreditamos serem devidas a causas aleatórias, e confinaremos nossa atenção àquelas que acreditamos ser causas mais “permanentes”. Conseqüentemente, numa economia de mercado, há algumas mudanças de preços que transmitem conhecimento e provocam reações, e sempre há outras que são descartadas, frequentemente de forma errada, e se tornam então economicamente sem função. Isso é uma distinção importante e que devemos retornar ao final do capítulo.

Tendo postulado nossas expectativas ao início de um “período”, nós a testamos ao final comparando os resultados efetivos com os esperados, tentando inferir disso se nossa diagnose inicial das forças e suas intensidades foi correta. Esse processo, como toda verificação de hipótese, é indireto e, portanto, muitas vezes não conclusivo. Novamente, ela requer interpretação e gera conhecimento imperfeito. Podemos ter estado corretos pelas razões erradas. Ou, apesar de sabermos agora que nossa hipótese original estava errada, nós não sabemos como poderíamos estar corretos. O mesmo resultado, digamos, uma mudança de preço, pode ter sido originada por um número diferente de constelações de forças majoritárias, consequentemente a necessidade de mais hipótese e testes.

Expectativas são então fases de um processo sem fim, o processo através do qual as pessoas adquirem conhecimento sobre as necessidades e recursos uns sobre os outros. Para nosso propósito atual, devemos tirar três conclusões desse fato:

Primeiro, quando em qualquer ponto no tempo olharmos para trás para nosso curso anterior de ação, vemos que todas nossas expectativas passadas formam uma seqüência contínua, tenham sido reveladas corretas ou erradas. Aprendemos com todas elas.

Segundo, há problemas de consistência, tanto interpessoal quanto intertemporal. Pessoas diferentes possuem expectativas diferentes ao mesmo tempo; a mesma pessoa pode possuir expectativas diferentes em momentos distintos. Esses são problemas muito insolúveis enquanto tomarmos as expectativas como independentes entre si. Porque elas deveriam ser consistentes entre si?

Mas se olharmos para o processo como um todo, o prospecto nos dá mais esperança; expectativas bem sucedidas, que passam no teste, são, no geral, mais propensas a refletir “forças reais” do que expectativas mal sucedidas. E aqueles cujas expectativas nunca são bem sucedidas provavelmente serão eliminados pelo processo de mercado. Além do mais, como veremos no Capítulo IV, o mercado também tende a evoluir instituições que atenuam inconsistência interpessoal e intertemporal.

Terceiro, os resultados de erros passados não existem apenas para fornecer lições, mas para prover recursos. Ao revisar nossas expectativas nós não só temos o conhecimento, quase sempre obtido a duras penas, de erros passados (nossos e dos outros) para aprendermos, mas também sua contrapartida física, capital mal investido. Capital mal investido ainda é capital que pode ser adaptado a outros usos. Esse é o principal problema da teoria do capital num mundo de mudanças inesperadas. Lidaremos com isso no Capítulo III.

Até então tentamos, muito brevemente, indicar ao menos algumas das fundações sobre as quais, em nossa visão, uma teoria das expectativas que verdadeiramente reflita processos econômicos que integram uma sociedade fundada sob a especialização e troca, deve estar baseada. Sob a luz do que aprendemos então devemos agora nos voltar para um exame crítico de outras tentativas de apresentar o problema das expectativas de uma forma sistemática.

Até recentemente, a maioria dos estudos do problema das expectativas foi informada pela visão de que se trata de um campo apropriado para a aplicação da teoria da probabilidade. Um empreendedor que tem que tomar uma decisão cujo resultado é desconhecido, é tratado como configurando uma distribuição de probabilidade dos possíveis resultados quantitativos para cada curso de ação aberto a ele. O próximo passo é usualmente substituir os preços mais prováveis atualmente esperados com incerteza por preços equivalentes esperados com certeza [1]. Dessa forma o intervalo da distribuição de probabilidade é comprimido a um ponto, um “equivalente certo” [2]. Em 1945 nós objetamos contra esse procedimento argumentando que ao substituir um intervalo de preços incertos por expectativas de um único valor nós temos mais a perder do que a ganhar, porque a reação à mudança de preços irá depender largamente da localização dos preços afetados dentro da escala de preços esperados [3]. Devemos explicar mais tarde porque mantemos essa visão.

Porém, enquanto isso, toda a abordagem probabilística ao estudo de expectativas esteve sob fogo cruzado. No capítulo final de seu livro Expectations In Economics [4], o Professor Shackle sujeitou aquilo que ele chama de “visão ortodoxa” da formação de expectativas a uma forte e extensa crítica. Seus argumentos não são novos [5], mas não deixam de ser eficientes. Seu ponto principal é a irrelevância das estimativas de probabilidade (no sentido de freqüência relativa) para decisões únicas ou quase únicas [6]. Poucas empreitadas individuais, por exemplo, mesmo no decorrer de suas vidas completas, dão origem a um número de ocasiões de tipos tão amplamente similares do tipo “amplo” requerido pela teoria, ou mesmo de aplicação prática dos princípios de probabilidade [7]. O argumento é reforçado pela ausência de “um universo homogêneo de resultados”. Para muitos tipos importantes de decisão quanto a assuntos humanos que devem ser tomados será impossível encontrar um número suficiente de exemplos passados que ocorrem sob condições apropriadamente similares; nenhuma figura bem construída de probabilidade para diferentes tipos de resultado pode ser estabelecida com base na experiência [8].

A crítica do Professor Shackle a abordagem probabilística ao problema das expectativas é sólida o suficiente, apesar de que, em nossa visão, a ênfase deveria estar na heterogeneidade de situações ao invés da unicidade de decisões. Parece-nos que o argumento do Professor Shackle pode perder muito de sua aplicabilidade ao mundo real se a “unicidade de decisões” for levada muito a sério. Poucas decisões empresariais são únicas no sentido de que são tomadas apenas uma vez na vida, e o Professor Shackle apenas enfraquece seu argumento ao confiná-lo a decisões de investimento que envolvem somas muito grandes [9]. Temos que distinguir entre unicidade de decisões e unicidade das situações que as decisões devem enfrentar e criar. O número de decisões empresariais possíveis é quase que certamente menor que o número de situações possíveis, precisamente porque num mundo incerto cada decisão pode ter um dos diversos resultados. E os “desfechos” aqui não são, como na natureza, “eventos externos dados”, mas sim o resultado de um processo complexo de interação sempre acompanhado pela transmissão de conhecimento. Parece então melhor basear nossa rejeição da teoria probabilística das expectativas com base na inerente heterogeneidade de situações ao invés da unicidade de decisões.

Se a contribuição positiva do Professor Shackle pode ser de muita ajuda ao lidarmos com os problemas elaborados anteriormente nesse capítulo é uma incógnita. O objeto de seu estudo é o processo mental de um indivíduo tem tomar uma decisão frente a um futuro incerto. Sua teoria é modelada no equilíbrio do indivíduo isolado (Robinson Crusoé) e para aí. Ela não nos diz nada sobre processos de mercado e nada sobre a troca e transmissão de conhecimento. Para termos certeza se um plano faz sentido ele tem que estar baseado num esquema auto-consistente de expectativas [10]. Mas a criação de tal esquema apenas marca o começo de nossos problemas. Temos que perguntar como essas expectativas se formam, como são revisadas caso desapontadas, e projetadas no futuro caso bem sucedidas. As mudanças de conhecimento que o Professor Shackle estuda em seu Capítulo III implicam uma “clarificação de expectativas” num sentido puramente formal. Os eventos que levam a tal clarificação são “eventos externos”, não transações de mercado. Em outras palavras, a teoria do Professor Shackle é estática, e mudança aqui é compreendida como mudança definitiva dentro do pano de fundo da estática comparativa.

É notável que na única vez que o Professor Shackle menciona um mercado real, é um mercado que, no tempo considerado, cessou sua operação; um mercado que não está em operação, mas sim em suspenso. Ao tentar compreender certo fenômeno de preços no mercado de terras periféricas ele descobre que “Evidencia descoberta pelo Comitê Uthwatt mostra que, aonde o cinturão de terra ao redor de uma cidade é parcelado entre um grande número de propriedades distintas, o valor de mercado de cada pedaço é tal que quando os valores separados são agregados, o total é muitas vezes maior do que poderia ser avisado por qualquer estimativa razoável do desenvolvimento agregado das construções em volta da cidade como um todo. É como se cada dono atual e potencial de um lote de terras perto da cidade estivesse convencido de que, graças a uma oferta total mais do que adequada de terra similarmente localizada, o particular lote em questão com certeza seria selecionado como parte do loteamento de novas casas que seria requerido digamos, durante os próximos vinte anos” [11].

O Professor Shackle considera isso um “fenômeno curioso”, e tenta uma explicação em termos de sua “funções de surpresa potencial”. Mas uma explicação muito mais simples pode ser dada em termos de processo de mercado, ou ao invés, de sua conspícua ausência nesse caso.

A função do mercado de capitais é alocar recursos escassos de capital entre vários usos alternativos. Isso é simples quando esses usos são conhecidos, mas não tão simples quando eles não o são. Para que sejam conhecidos, entretanto, não é suficiente meramente que a quantidade requerida seja conhecida. Aonde esses usos são específicos, a menos que usos individuais e suas necessidades específicas sejam conhecidos, nenhuma alocação pode acontecer.

No caso sob discussão é justamente isso que aconteceu: enquanto a demanda total pode ser estimada, demandas individuais futuras são desconhecidas. Por outro lado, a necessidade de terra para desenvolvimento urbano é a necessidade mais importante. Nessa situação o mercado garante a provisão futura da necessidade mais importante ao suspender a alocação para outras necessidades criando um estoque de reserva de terra. Ele faz isso ao igualar o preço de cada lote ao seu valor em satisfazer a necessidade mais importante, impossibilitando assim para alguém que queira terra para outros propósitos, consegui-la. A necessidade de um estoque de reserva irá continuar até que as necessidades individuais e específicas sejam conhecidas. Lá, e apenas lá, o processo de mercado de alocação pode começar. “O mercado”, no verdadeiro sentido econômico, significa um processo de troca e alocação refletindo a transmissão de conhecimento. Ele não significa simplesmente que preços são especificados. Os preços especificados podem ser tais para prevenir, e não para facilitar as negociações. Aonde isso ocorre temos um mercado em suspenso, e não um mercado em operação. O Professor Shackle, como os experts do Comitê Uthwatt, foi uma vítima de confusão verbal.

A partir desse exemplo pode ser visto que a teoria das expectativas negligencia o processo de mercado se arriscando.

Após essa digressão crítica, devemos começar uma tarefa mais construtiva. O leitor, perante o qual postulamos algumas idéias sobre expectativas na parte inicial desse capítulo, sem dúvida espera que se dê uma forma concreta a elas ao incorporá-las no quadro analítico dentro do qual problemas concretos podem ser resolvidos e processos reais de mercado tornados inteligíveis [12]. Mas há outra razão, intrínseca ao nosso argumento, para que pratiquemos uma tentativa nessa direção.

Descrevemos uma economia de mercado em movimento como uma rede imperfeita de comunicações. Há, no entanto, mudanças econômicas importantes que não encontram sua expressão em mudanças de preço. Elas constituem o fenômeno de inflexibilidade de preços sobre a qual diremos algo no Capítulo IV. Há também mudanças de preço que não refletem mudanças econômicas importantes. Dissemos acima que numa economia de mercado existem algumas mudanças de preço que transmitem conhecimento e são motivo para ação, e há sempre outras que são descartadas, frequentemente de maneira errada, e se tornam então economicamente “sem função” [13]. Evidente é de grande importância para nós encontrar uma generalização sob a qual um critério adequado de distinção entre movimentos de preço “significativos” (com significado) e “sem função” (sem significado) pode ser baseado. Se tal generalização não pudesse ser encontrada se tornaria então impossível afirmar que os preços integram a economia de mercado. Tudo que poderíamos dizer seria: alguns o fazem e outros não. Há muitas dificuldades é claro ao encontrar tal generalização, dentre as quais há uma em especial que reflete diretamente o que chamamos de subjetivismo de interpretação: o mesmo movimento de preços pode ser significativo para alguns, e sem sentido para outra pessoa. Entretanto nos parece ser possível construir um quadro analítico no qual:

possa ser dado um sentido claro à distinção entre movimentos de preço significativos e sem sentido, e
a distinção possa ser vista como possuindo um significado prático: movimentos de preço significativos e sem sentido possuem de fato resultados diferentes.

Pode até ser possível ligar essa distinção com aquela entre forças minoritárias (“aleatórias”) e majoritárias (“permanentes”). Poderíamos dizer, por exemplo, que o mercado tende a não levar em conta mudanças de preços tomadas como sendo devidas a causas aleatórias enquanto dedica atenção especial àquelas que ele acredita sendo causadas por uma mudança na constelação das forças fundamentais.

Tal quadro analítico encontramos naquilo que, seguindo o Dr. Lange, chamamos de “Intervalo Prático” [14].

Vamos supor que num mercado um “conjunto de expectativas auto-consistentes” teve tempo de se cristalizar e criar uma concepção de um “intervalo normal de preços”. Suponha que qualquer preço entre $95 e $110 fosse assimilado como mais ou menos “normal”, enquanto um intervalo maior de preços, digamos de $80 até $125, fosse tratado como possível. Temos assim dois intervalos, um “intervalo interno” de 95 até 110 refletindo a concepção atual de “normalidade”, e um “intervalo externo”, associado com o que é compreendido como uma mudança possível de preço. Muitos economistas começaram seu estudo de expectativas com a noção de “intervalo”, usualmente na forma de uma distribuição de probabilidade, mas apenas para descartá-lo no momento seguinte em favor de um ponto, um “equivalente certo”, substituindo os preços mais prováveis realmente esperados com incerteza por preços equivalentes esperados com certeza [15]. Em contraste, devemos procurar mostrar que a localização e movimento dos preços atuais dentro de nossos intervalos são de importância crucial para a formação de expectativas, e que ao comprimir o intervalo a um ponto perdemos o próprio quadro de referência dentro do qual mudanças reais de preços podem ser significantemente interpretadas e mostradas sendo relevantes para a formação de expectativas.

Qual é a significância de nossos dois intervalos para a formação e revisão de expectativas?

Enquanto os preços vigentes se moverem dentro do intervalo interno, digamos, dentre 96 e 109, tais movimentos de preços provavelmente serão tratados como insignificantes e devidos a causas aleatórias. De fato, onde o conceito de “normalidade” está fortemente enraizado, será muito difícil o preço ultrapassar os limites. Isso porque assim que o preço se aproximar dos limites inferior e superior do intervalo interno, as pessoas irão acreditar que o movimento “não pode ir mais adiante” e, antecipando um movimento em reverso, irão vender (perto do limite superior) ou comprar (perto do limite inferior). Em tal situação, expectativas inelásticas tenderão a “estabilizar” os preços dentro do intervalo interno.

Mas suponha que apesar da pressão de vendas perto do limite superior, e da pressão de compras perto do limite inferior, o preço ou vá acima de 110 ou caia abaixo de 95. Tal evento mais cedo ou mais tarde dará origem a segundos pensamentos. Enquanto os preços vigentes se movam dentro do intervalo externo, entre 110 e 125, ou 80 e 95, nada que foi considerado impossível aconteceu, é verdade. Mas os operadores mais ponderados prestarão atenção. O mero fato de que apesar da alta pressão “especulativa” encontrada perto dos limites do intervalo interno e engendrada pelas expectativas inelásticas bem como pelo senso de “normalidade” do intervalo interno, o preço foi capaz de ultrapassar esses limites é uma mostra das forças que o devem ter carregado até ultrapassar esses formidáveis obstáculos. Tal movimento dificilmente pode ser devido a causas aleatórias.

Mas a força que carregou o preço além de seus limites, apesar de forte, não precisa ser uma força permanente. Ela pode se esgotar mais cedo ou mais tarde. O mercado irá então julgar a significância dos movimentos de preços dentro do intervalo externo através do critério suplementar do fator tempo. Se os preços cederem rapidamente e voltarem ao intervalo interno isso irá com certeza confirmar a noção prevalecente de normalidade. Mas se eles ficarem dentro do intervalo externo, gradualmente a opinião irá se modificar. Primeiro alguns, e depois outros, irão revisar sua noção de “preço normal”. Tal revisão se expressará numa nova disposição de comprar a certo preço, digamos, 118, ao qual anteriormente haveria ocorrido uma venda, ou uma nova disposição de vender a certo preço, digamos, 88, ao passo que anteriormente haveria ocorrido uma compra. Isso significa que um movimento de preço, uma vez que foi forte o suficiente para superar a pressão de resistência nos limites do intervalo interno, e alcançar o intervalo externo, irá provavelmente mais cedo ou mais tarde ser levado adiante pelas próprias forças especulativas que anteriormente resistiam a ele. Isso é facilmente observado se refletirmos que as compras e vendas perto dos limites devem acontecer à custa de estoques normais, de forma que um preço de 115 provavelmente encontraria agora o mercado com estoques baixos, e um preço de 90 com um acúmulo excessivo de estoques que são agora uma mera relíquia da especulação mal sucedida dos “normalistas”. Um movimento rápido dentro do intervalo externo pode tanto devido a mudanças de estoque (positivas ou negativas) como a operação de forças mais permanentes. Isso porque em tal situação o mercado presta muita atenção nas variações de estoque [16]. De fato, em condições dinâmicas os movimentos de preço sempre têm que ser interpretados com um olho na “posição estatística” do mercado que se torna então um segundo critério suplementar para a diagnose.

Uma vez que o preço ultrapassa os limites do intervalo externo, sobe acima de 125 ou desce abaixo de 80, nos deparamos com uma situação completamente nova. O mercado, desprovido de seu senso de normalidade, terá que revisar seu diagnóstico das forças permanentes governando uma “situação normal”. Pode estar claro agora para todos que a hipótese sobre a constelação de forças fundamentais que formavam a base de nossa estrutura de intervalos foi testada e falhou. Mas enquanto a falha de um experimento pode invalidar uma hipótese, ela por si só não sugere uma nova. Disso segue que de maneira alguma as forças realmente em operação serão reconhecidas de uma só vez. Isso depende do enfoque, vigilância e inteligência do mercado. A experiência mostra, por exemplo, que uma inflação quase nunca é reconhecida em seus estágios iniciais, pelo menos numa sociedade que não possua experiência anterior com o problema. Quase que invariavelmente, em um ponto ou outro dessa fase inicial, as pessoas irão pensar que os preços já estão “muito altos”, irão protelar compras e adiar planos de investimento. Dessa forma, elas irão, graças a sua própria falha ao compreender o modus operandi da força fundamental, mitigar seu impacto por um tempo ao reduzir a “demanda efetiva”. E se, como não é impossível, a inflação parar precocemente, elas podem ter estado corretas afinal! Mas é mais provável que elas estejam erradas. E enquanto sua ação acarrete a submanutenção do capital, os resultados finais para a sociedade podem ser desastrosos.

Podemos concluir que movimentos de preço dentro do intervalo interno serão descartados e dessa forma “sem função”. Mudança de preço além dos limites do intervalo interno pode ou não ser significativa, mas o julgamento aqui irá depender dos critérios suplementares tais como o fator tempo e variações concomitantes no tamanho dos estoques. É apenas quando os preços movem além do intervalo externo que eles se tornam inquestionavelmente “significantes”, e não podem mais ser descartados, conferindo uma “mensagem”. Mas ao passo que o conteúdo negativo da mensagem seja claro o suficiente, a saber, a invalidação da hipótese que formava a base da antiga estrutura de intervalos, seu conteúdo positivo é bem menos claro. A mensagem ainda requer interpretação, e isso dependerá do enfoque e inteligência dos homens no mercado.

Nosso conceito da Estrutura de Intervalos, composta de intervalos externo e interno, parece assim vindicada como uma útil ferramenta de análise, e nossa recusa de substituí-la por um “equivalente certo” parece estar justificada. Nosso conceito nos permite fazer uma distinção entre fenômenos de preço que são consistentes com a estrutura existente de expectativas, caem “dentro dos intervalos”, e dessa forma não causam desapontamento, e, por outro lado, fenômenos inconsistentes com a estrutura existente de expectativas, que caem “fora dos intervalos” e necessitam de uma revisão. Percebemos que enquanto o movimento de preços está confinado dentro do intervalo interior ele não fornece nova informação relevante, mas meramente confirma a veracidade do diagnóstico que encontrou sua expressão na existência desse intervalo, ao passo que movimentos dentro do intervalo externo fornecem informação de valor problemático que para ser útil precisa ser suplementada pela observação de outros fenômenos. Entretanto, assim que os preços se movem além dos limites do intervalo externo, a inadequação do diagnóstico no qual os intervalos foram baseados se torna patente. Uma nova situação apareceu a qual requere um novo diagnóstico e dessa forma um novo esforço mental.

Permanece verdade que, em geral, mudanças de preço integram uma economia de mercado ao disseminar novo conhecimento. Mas nem toda mudança de preço é igualmente significativa quanto a esse respeito. Sua significância tem que ser avaliada com respeito a uma “dada” estrutura de expectativas que encontra sua expressão num sistema de intervalos. Seu efeito prático irá depender de quão rapidamente as pessoas no mercado compreenderão o que aconteceu e revisarão suas expectativas. Impedir mudanças de preço é então restringir conhecimento do mercado. Por outro lado, é possível que haja movimentos de preço “enganosos”. Sobre eles mais será dito nos capítulos posteriores.


Notas do Autor


[1] Oscar Lange: Price Flexibility and Employment, p. 31

[2] G. L. Shackle: Expectations, Investment and Income, 1938, p. 64.

[3] L. M. Lachmann: ‘A Note on the Elasticity of Expectations’, Economica, Novembro 1945, p. 249.

[4] G. L. Shackle: Expectations in Economics, 1949, p. 249.

[5] Cf. F. H. Knight: Risk, Uncertainty and Profit, Capítulo VII, especialmente pp. 224–32, and L. v. Mises: Ação Humana, Capítulo VI, especialmente pp. 106–15.

[6] G. L. Shackle: Expectations in Economics, 1949, p. 127.

[7] Ibid., p. 110.

[8] Ibid., pp. 109–10.

[9] Nenhum executivo de negócios tem que decider 100 vezes em dez anos se gasta ou não um milhão de libras numa fábrica – p. 115. 

[10] Ibid., p. 111.

[11] G. L. Shackle: Expectations in Economics, 1949, p. 91. (Itálicos dele.)

[12]  É verdade que para o propósito principal desse livro, a elucidação de uma concepção morfológica de capital, isso pode não parecer estritamente necessário. Mas, como será visto no Capítulo IV, pode ser útil ao nos fazer compreender a distinção entre mudanças consistentes e inconsistentes de capital.

[13] Ver acima, p. 24.

[14] Lange, op. cit., p. 30

[15] Ibid., p. 31.

[16] Cf. L. M. Lachmann: ‘Commodity Stocks and Equilibrium’, Review of Economic Studies, Junho 1996


Notas do Tradutor

[*1] “Bygones”.

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